domingo, 7 de setembro de 2014

"Eu sei, mas não devia", de Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.


Por Marina Colasanti, 1972.

Sim, esse texto tem 42 anos. 
Mas se fosse escrito hoje seria igual, sem tirar nem por.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Como ser "uó"

Ao longo da sua vida você vai encontrar pessoas...

que sabem que vão se atrasar e não vão te falar nada. Bom, no meu caso, me certifico e ligo já sabendo o que vou ouvir: “Vou me atrasar um pouquinho, tá?” Tá.

que se atrasam, sabem que vão se atrasar, não avisam, chegam atrasadas e ainda levam uma pessoa completamente desconhecida para um local onde todos sabem que essa pessoa vai ficar deslocada – até mesmo quem a trouxe sabe disso. "Trouxe meu amigo. De boa?" De boa.

que vão marcar com você e combinar um outro compromisso no mesmo horário.

que vão marcar e sumir da face da Terra.

que vão marcar, sumir e reaparecer dias depois te chamando de sumido porque você não as procurou. "Oi sumido rs"

que querem marcar pra lhe conhecer, mas é você que tem que ir encontrá-la numa festa na qual essa pessoa vai estar rodeada de amigos. Lembra do caso lá de cima em que alguém fica deslocado? Pronto, aqui é você.

que vão te escolher para te por entre compromissos. “Eu vou sair do trabalho e mais tarde vou numa festa com meus amigos. Queres sair nesse meio-tempo?”

que, igualmente estranho, vão te chamar pra sair a qualquer hora, mesmo sabendo que você não pode. "Ai, como você é ocupado".

que delimitam a saída. “Nós vamos, mas vou avisando que não vai rolar nada, tá?”. Tá. Desculpa. Não brinco mais.

que marcam, chegam na hora, sentam e pegam o celular. E conversam com as pessoas do celular. E tiram foto. E mandam mensagem de voz. E atendem a mãe. E dizem que precisam ir porque está tarde.

que vivem dizendo que querem marcar, mas não tiram um segundo pra pensar num dia, local e hora. Mas querem. "Sei lá, vê aí e me avisa que tento ver aqui".

que querem te conhecer pra saber o quanto vocês são iguais - e se decepcionam fortemente quando descobrem que vocês não curtem a mesma diva pop ou a mesma festa. E se sentem mal porque a "pauta" da saída, da qual elas são especialistas e gostariam de mostrar, desmoronou, porque não sabem falar de outra coisa.



Sabe essas pessoas? Elas não são "uó".
"Uó" é você.
Você mesmo, que acha isso tudo aí, que é tão normal pra elas, uma grande bosta.
"Uó" é você, que é taxado de chato, ressentido e rancoroso porque dispensa alguém que faz essas coisas. 
"Aff, aceite. Todo mundo faz."
Ser legal é ser desrespeitado e desvalorizado e aceitar de boa.

Posso dar um conselho? 
Seja “uó” e seja feliz.



Este texto não foi uma indireta. Foi apenas uma reflexão sobre coisas que aconteceram ao longo da minha vida. 
Se você se identificou com isto porque fez ou faz algo do tipo, procure um psicólogo.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Cemíque, o designer gótico

A história que vou contar data do Séc. XV, d.C. 1447, para ser mais específico. 
Auge do estilo gótico na Europa.


Cemíque de Sartre era um jovem designer freelancer francês desempregado. Aconselhado pelo seu pais, começou a viajar de feudo em feudo pela Europa atrás de uma agência para trampar. Após uma série de longas cartas enviadas à pombo, ele finalmente se estabilizou na Itália, na lendária agência Godos, especializada no estilo gótico, que atendia algumas das principais congregações do país e tinha levado dois grand prix um ano antes na mais célebre premiação do Vaticano – o Vaticannes. Na Godos, Cemíque era da equipe que atendia os beneditinos, clientes recém-chegados, que estavam completamente insatisfeitos com sua última agência, GRAcom – Comunicação Greco-romana, porque ela ainda não havia saído do estilo românico e defendia o desenvolvimento de prédios ao estilo de Cluny, com abóbodas de arestas e outras velharias baseadas na antiguidade.

Abóbodas de arestas

Aos beneditinos agradava o planejamento estratégico da antiga agência, que definiu pontos-chaves para as construções de igrejas nos caminhos dos peregrinos, que viajavam até lugares santos, como Jerusalém. Isso fez com que a marca deles aparecesse para mais gente além dos moradores dos feudos. Foi um live marketing de referência para a época, mas essa estratégia estava velha. Agora os beneditinos estavam a fim de afrescos, vitrais, mais iluminação interna dos edifícios e uma arte gráfica baseada nas iluminuras. Ah, e claro, um bom trabalho de redes sociais com os senhores feudais e a burguesia, que começava a surgir. A pegada era a modernidade da Idade Média: muita expressão e mais realismo.

O estilo gótico estava em alta e os beneditinos não podiam mais perder tempo. Só pra se ter uma ideia, Giovanni Pisano, diretor de criação da Pisano+McCann, que atendia congregações concorrentes, havia sido o diretor de arte que estampou a Meio&MensagemSeladaComCera do Séc. XIV, como o profissional de design mais requisitado da Europa pelo seu trabalho “A Virgem e o Menino”, uma madona desenvolvida em 1305, que ao contrário das madonas do estilo românico, mais rígidas e que traziam o Menino Jesus sentado em seu colo, essa tinha um ar muito mais leve, era expressiva e estava com a criança em um dos braços, deixando o outro livre para realizar as tarefas domésticas. É um case que inspira até hoje pelo apelo à modernidade e pela imagem de independência feminina. 

Madona de Pisano

Essa foi a gota d’água para que os beneditinos procurassem outra agência. E eles chegaram na Godos com um grande problema de marca – a única que eles tinham havia sido esculpida no mosteiro de Saint-Pierre 500 anos antes. Era hora de dar uma modernizada. Mas como garantir que essa nova marca – que engloba o logotipo, todo o trabalho visual, o relacionamento com os senhores feudais bem-nascidos e a venda de produtos de primeira qualidade, como exclusivos espaços no céu com 3 quartos, sendo um retrátil e área de lazer completa – não se modernize tanto a ponto de destoar com a tradição da instituição religiosa? A agência tinha um desafio e Cemíque, que até então tinha feito apenas ilustrações para afrescos e uns vitrais aqui e outros acolá, agora era o designer responsável pela marca de uma construtora/seguradora de espaços no céu de grande prestígio. A modernização da marca dos beneditinos representava a atualização da igreja católica, que tinha que se aproximar dos fieis com arquitetura, pintura e escultura – já que quase todos eram analfabetos – e com iluminuras, para quem sabia ler.

Mosteiro de Saint-Pierre

A agência tinha que apresentar o planejamento em menos de 22 anos, tempo recorde para a época. E Cemíque, que fazia dupla com Snah, redator, não tinha nem mais 20 anos para projetar todas as peças. A produção estava aguardando as artes das iluminuras porque os velinos (pele curtida de cordeiros ou vitelas, o “papel” da época) estavam encarecendo e os fornecedores de construção da época estavam ocupados com as outras congregações. A mídia reservava os espaços para novas catedrais com meio século de antecedência. Para resumir: estava uma correria. Milhões de slides do planejamento foram esculpidos e descartados por problemas com a estratégia ou até mesmo porque continham erros de ortografia. 

Finalmente, em 1469, o planejamento foi apresentado. O cliente curtiu mas fez algumas alterações, é claro. Pesquisando em documentos, descobri que o planejamento solucionou todas as demandas do cliente de forma criativa e estratégica, bem ao estilo gótico. Uma das sugestões foi a criação da relíquia, qualquer material de qualidade duvidosa que seja devidamente abençoado e ligado a algum santo ou pessoa importante da igreja. Foi uma das coisas que fez com que o cliente comemorasse, pois agora, além de um expressivo melhoramento na relação com os fiéis, ia entrar mais ouro.

Numa troca de correspondências, um dos arte-finalistas da Godos, Horst de Lambert, de uma tradicional família de arte-finalistas, fez uma preciosa recomendação ao atendimento, que foi repassada aos beneditinos.


Caros senhores do marketing,

Compreendeis nosso extremo empenho em relação às peças que serão desenvolvidas ao estilo gótico, como nos foi demandado. Mas num devaneio, abaixo de uma árvore, nosso arte-finalista pensou numa solução que aproximaria ainda mais os senhores dos fieis e que não pusemos no planejamento: música. É uma coisa meio barulhenta, mas uma das melhores soluções para decorar. Há batuque e dedilhar de cordas. Não peço nem que contratem corais, já que isso seria inviável para cada igreja e cada missa, mas já imaginaram padres cantores?

Att,

Atendimento.

PS. Em anexo, os meninos da orquestra para tocar pra vocês. Aproveitem.


A resposta foi frustrante para a agência:


Caro Atendimento,

Tu és abençoado pelo dom da criatividade. E bem-aventurado serás no reino dos céus por tuas contribuições brilhantes e parceria com a igreja. Mas temos uma marca tradicional a zelar e a igreja preza pela ordem – inclusive auditiva. Desculpe-nos pela resposta negativa, mas “padres cantores” é a ideia mais absurda que ouvimos em todos esses séculos. E essa música sobre animaizinhos que o senhor nos enviou já foi atirada à fogueira.
Estamos estudando maneiras de estruturar melhor as regras para a inquisição. Sugiro que deixe de pensar em absurdos e se concentre no que interessa. Caso contrário, lenha e combustível é o que não nos falta.

Att,

Pe. Robertus J.

P.S. Obrigado pelos meninos.


O planejamento, que consistia em uma nova cara gráfica para a marca, trabalhos de live marketing para reforço junto aos fieis, montagem de templos, mídia OOH, tudo isso integrado às redes sociais/econômicas da época, foi aceito – sem a música – e o job passou para a criação. Nos primeiros anos, os meninos desenvolveram as iluminuras. Snah escrevia o texto e Cemíque fazia o layout. No decorrer do desenvolvimento, de acordo com documentos raríssimos encontrados, as peças aprovadas tinham os selos dos diretores de criação: bonum est stupri – algo como “tá do caralho”, em latim.

Já homens feitos, Cemíque e Snah tinham projetado três catedrais, ainda no caminho dos peregrinos, com toda a arte interna que uma construção gótica podia ter, inclusive com arcobotantes, abóbodas de arcos ogivais decoradas com nervuras, muitas janelas, vitrais e torres. Investimento em espaço de mídia interno para pinturas e esculturas era o que não faltava. Tudo foi preenchido gloriosamente e pago em barras de ouro, que já valiam mais do que dinheiro. 

Diferença entre uma abóboda e um arco ogival, marca do estilo gótico 

Cemíque estava obcecado. Pegou – literalmente – o trabalho de sua vida. Ele queria que fosse eterno. Tinha certeza que o estilo gótico seria, dali em diante, a forma padrão de construção e produção das igrejas católicas. Nada era mais moderno que aquilo. Ele era um designer kubrickano, gostava de ver cada coisinha milimetricamente em seu devido lugar, com um ponto de equilíbrio em tudo. Por isso amava tanto o estilo gótico e se recusava a falar de outra coisa. Com o passar dos anos, a criação para os beneditinos tornou-se sua única referência, fazendo com que ele continuasse baseando seu trabalho em seu próprio trabalho. Durante o desenvolvimento das peças, Cemíque pegou peste algumas vezes, por isso sempre tomava vitaminas e banho com sabonete antipestiano. “Tu és um dos mais cheirosos”, escreveu Gioconda, sua amiga pessoal e modelo de retratos, dona de uma confecção de seda em Florença.

Era 1499 e o trabalho andava com atraso. A agência Colombus era a líder de mercado desde o início da década, quando descobriu que havia um nicho novo para ser trabalhado.  A Godos sofria com uma séria crise de identidade que assolava toda a Europa. As congregações tinham o enorme desejo de concentrar o seu trabalho de marketing nesse novo lugar, conhecido como Nova Índia (depois como Vespúcia e hoje, América), cheia de novos clientes sem noção da riqueza que possuíam. A conta mais forte da Godos nesse momento era uma fabricante de espelhos, o que já foi uma grande mudança na empresa, que era voltada ao marketing de cruzada – o atual marketing de guerrilha, só que com vertente religiosa.  

Cemíque estava no fim de sua vida. Já tinha quase 70 anos quando a criação entregou o job para a mídia e a produção. Da equipe que trabalhou com ele junto aos beneditinos, só o executivo de contas estava vivo, mas já não ia mais às reuniões por causa de seus problemas auditivos. Nos últimos 6 anos, o designer já estava desapegado e fazendo sem amor. O marketing havia mudado muitas vezes e agora havia um rapaz novo e insatisfeito. Quase toda semana ele excomungava o dono da Godos pelo trabalho, mas acabava voltando atrás. A verdade é que esse jovem já olhava o estilo gótico com desaprovação.


Irmãos da Godos,

Estamos na virada do século e vocês me apresentam o gótico como se fosse novo? As coisas estão mudando. Precisamos voltar às origens; voltar a nos inspirar nos gregos e romanos. Não da forma que era feita anteriormente, mas de um jeito muito mais moderno. A história dá voltas, não é, irmãos?


Quando leu isso, Cemíque começou uma guerra contra si mesmo. Como uma pessoa podia querer fazer algo ao estilo greco-romano, que já não era feito há mais de 100 anos, como se fosse uma coisa moderna? Ele foi ser aconselhado pelo departamento de oráculo da agência, hoje conhecido como mídia. A mídia, que naquela época sentia muita falta de espaços que não fossem em vitrais dentro de grandes catedrais, deu uma sugestão. “Por que não transformas o teto da catedral em espaço de mídia?”. Isso ficou martelando na cabeça de Cemíque por alguns meses, até ele ceder. Mas de que forma a pintura no teto poderia ser um referencial ao estilo greco-romano como o cliente queria? “CÚPULAS, PORRA!”, Cemíque pensou. Então foi redesenhando a catedral com base em pinturas de monumentos gregos, mas mantendo a modernidade. Foi mudando toda a cara da catedral, deixando tudo mais padrão, com tamanhos iguais dos dois lados e uma cúpula gigante que por dentro seria toda decorada. 

Cúpula com mídia

Mesmo vintage, a catedral ficou estilosa, mas havia a dúvida: o cliente está preparado pra tanta coisa diferente? O planejamento entrou em ação mais uma vez e a apresentação ficou conhecida como o grande concílio de 1500. A apresentação foi um grande sucesso e foi recebida até uma carta do Papa com congratulações. Cemíque tinha ido mais longe. No auge do estilo gótico ele havia criado, ainda sem saber, o estilo renascentista. Ele não viveria muito depois disso nem veria a catedral pronta, mas por muitos anos, Santa Maria del Fiore, como foi chamada, atraiu consumidores, gente do mercado publicitário e muitos fieis. 

Em seu leito de morte, Cemíque admitiu que não havia curtido o resultado, por isso não tinha assinado o projeto, mas sabia que aquilo podia ser o início de uma coisa grande. Hoje sabemos que o renascimento, período que fez com que a Europa retornasse aos tempos áureos do conhecimento científico, começou graças a um designer que deu o braço a torcer, mas desapegou-se de sua ideia a ponto de não valorizá-la. Cemíque foi o pai do Renascimento, apesar de ele ter sido mais famoso por jogar polo muito bem.

Santa Maria del Fiore

A ele, todo o nosso respeito.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Chegou a hora de assumir

Já não aguento mais ficar me escondendo. Não aguento viver numa sociedade que pode até fingir que me aceita, mas sempre que noto, me olha com desconfiança. A seguir, o depoimento de alguém que resolveu assumir de vez o que realmente é, sem medo dos opressores.

Para alguns, uma mera característica de alguém. Para outros, ofensa. Para alguns, há tratamento e tudo pode se inverter. Para outros, é questão de genética. Eu não sei bem quem está certo, se é doença ou não, mas sei que tenho me sentido diferente ultimamente. É difícil quando você tem alguma coisa que inconscientemente incomoda as pessoas. E pior é quando você sofre preconceito por isso. As pessoas me pressionam para que seja alguém que não sou. Mas hoje me dei conta disso e perdi o medo. Conheço muita gente incrível que é igual a mim e é muito feliz.

O que me preocupa é o quanto isso muda a imagem de alguém para a sociedade. Isso me lembra, por exemplo, o caso do Ronaldo, o fenômeno. Depois que aconteceu o que aconteceu ele virou motivo de chacota. Bom, já não me importo mais. Acho que ele também superou isso e vive feliz. Só fico triste pelos meus pais. Eles são de uma sociedade que me moldou para ser parte de um padrão, da forma mais conservadora possível.

Só me pergunto por que isso parece incomodar tanto as pessoas. Qual a razão dessa palavrinha que começa com “g” ser vergonha para alguns? Sim, somos diferentes, usamos roupas diferentes, temos necessidades diferentes, mas sei que no fim todo mundo só está buscando uma coisa: ser feliz. É por aí que estou começando. Tenho que me aceitar para poder ser feliz sendo eu mesmo.

Sim, sociedade, eu sou gordo! Sou gordo e não estou nem aí para shakes! A vida é muito curta para não provar a grande variedade de cervejas que existem no mundo ou morrer com apenas um pedaço de ricota no estômago. Comida é mais que alimento, é experiência. E vou falar: sou gordo e tão saudável quanto você. Tomo Centrum todo dia. Doente, pra mim, é quem tem preconceito. Porque a gente sabe que todo mundo que comete bullying gostaria, na verdade, de poder assumir a identidade do oprimido. Tenho orgulho de ser gordo e acho que no fundo todo mundo gostaria de ser.


É nós, Ronaldo!

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

MORTE

Epícuro, filósofo grego, me fez chegar a uma conclusão: a morte só existe quando estamos vivos. Só digo isso porque, infelizmente, não é raro vermos alguém morrendo digitalmente e até pessoalmente, afinal, vivemos no Brasil. Exemplificando, eu bem que poderia comparar a morte ao gosto ruim de Cup Noodles, afinal, só sabe quem já provou - e que se fossemos racionais ninguém provaria. Só que ao contrário de Cup Noodles, não há por que temer a morte. Quando a gente morre não existe morte, isso porque deixamos de existir.  

Para quem não sabe, Epícuro foi o cara que inspirou Descartes a escrever “Penso, logo existo”, após comer um pastel de carne. O pequeno René costumava escrever nos guardanapos depois de devorar seu pastel de todas as tardes. Há relatos de que muitas de suas frases foram perdidas. O motivo seria a quantidade de óleo que ficava nos guardanapos. Segundo sua biografia não autorizada, Descartes foi o típico exemplo de empreendedor frustrado, visto que tentou registrar por várias vezes o CNPJ de uma pastelaria. Não rolou e ele virou filósofo.

Quem também me inspira muito a pensar sobre a morte é Woody Allen. Ele disse uma vez “Não é que eu tenha medo de morrer. É só que não quero estar presente quando isso acontecer”. Típico caso de pessoa que sonha em morrer dormindo. Qual a graça disso? Quero poder aproveitar esse momento ao máximo, afinal, a morte acontece só uma vez na vida. Sem falar que se eu morrer dormindo provavelmente vou deixar o ar-condicionado ligado, o que não seria bom para o meio ambiente.

Meu amigo Tiago diz que é frustrante pensar que a gente faz tanta coisa e aprende tanto durante a vida para acabar jogado dentro de uma vala num saco, como aconteceu a Mozart. Aí lembrei-me que Diógenes, outro filósofo grego, também devia pensava assim. Durante toda a sua vida, ele praticou o desapego a todas as coisas e morava num barril, onde cuidava de cachorros abandonados. A primeira conclusão é que a filosofia cínica, praticada por Diógenes, inspirou tanto Chaves quanto Luisa Mell. A segunda, como todo bom traço filosófico, é uma dúvida: vale a pena ter tanta coisa se não vamos levar nada?

Mas há quem diga que vamos. Um dia desses um rapaz, durante o seu próprio velório, levantou-se, bebeu água, enviou um Snapchat e voltou a morrer. Uma marca de água mineral aproveitou esse fato e lançou a campanha “A sede vem a qualquer hora”, premiada em Cannes. Ela não diz pra onde vamos, mas revela que levamos algo sim.

E para onde vamos? Acho que para um lugar que nos recicle e faça com que a gente conviva com todo tipos de seres bizarros, parecido com uma auto escola. Aprendemos teoria, fazemos test drive e voltamos novamente para sempre passar direto quando nos é exigida atenção. Eu sempre pensei na morte como um momento de espera para reencarnar, mas nunca soube muito como isso funcionaria. Tirando pelo meu perfil, talvez eu tenha sido em vidas anteriores Charlie Chaplin ou Macaulay Culkin (esse sósia magrelo não engana ninguém).

Também há uma série de coisas positivas em morrer, uma delas é o fato de que essa “é uma das poucas coisas que você pode fazer deitado”, já dizia Woody Allen. Então quando você estiver em crise existencial e com medo da morte, lembre-se: morte é ausência e inexistência de dor, sofrimento, coisas ruins. No mais, faça as coisas darem certo agora, durante a vida. A vida é um estágio. É um “estágio” literalmente, porque estamos aqui para aprender, buscar crescimento e sentido para as coisas, inclusive para a nossa própria existência. E depois? A gente deixa tudo aqui. Até esses corpinhos que tanto cuidamos.


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