terça-feira, 10 de março de 2015

30 frases de Mario Quintana para ver as coisas com olhos de primeira vez

Neste ano, me comprometi a ler um poema por dia. Deles saem frases que são mais do que genais, me ajudam a redefinir - ou complementar - meu ponto de vista em relação a várias coisas da vida. Abaixo, 30 frases de Mario Quintana, que também podem te ajudar a ver as coisas de um jeito novo.


“A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer”

“O despertador é um acidente no tráfego do sono”

“As nossas mortes são noticiadas como nascimentos na imprensa do Outro Mundo”

“A rua é um rio de passos e vozes”

“A vida são lições que a gente leva para fazer em casa”

“As crianças não brincam de brincar. Brincam de verdade”

“Sonhar é acordar-se para dentro”

“Não esquecer que as nuvens estão improvisando sempre, mas a culpa é do vento”

“O que mata um jardim é esse olhar vazio de quem por eles passa indiferente”

“Nunca me releio... tenho um medo enorme de me influenciar”

“O poema é uma bola de cristal. Se apenas enxergares nele o teu nariz, não culpes o mágico”

“O que eles chamam de nossos defeitos é o que nós temos de diferente deles”

“Velho é quem é um ano mais velho que a gente”

“O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada a ver com isso”

“Deus é mais simples do que as religiões”

“O melhor para amores mal correspondidos é uma feijoada completa”

“O livros traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado”

“Amar é mudar a alma de casa”

“A saudade que dói mais fundo – e irremediavelmente – é a saudade que nós temos de nós”

“Nada se perde; tudo muda de dono”

“O futuro é uma espécie de Banco, ao qual vamos remetendo, um por um, os cheques de nossas esperanças. Ora! Não é possível que todos os cheques sejam sem fundo!”

“No dia que estiveres muito cheio de incomodações, imagina que morreste anteontem... Confessa: tudo aquilo teria mesmo tanta importância?”

“Quem nunca se contradiz deve estar mentindo.”

“O bom das filas é nos convencerem de que afinal esta pobre vida não é tão curta como dizem”

“O passado não reconhece o seu lugar: está sempre no presente”

“Temos todas as nossas idades ao mesmo tempo”.


“Os que fazem amor não estão fazendo apenas amor: estão dando corda no relógio do mundo”

Mario Quintana

terça-feira, 3 de março de 2015

8 pequenas grandes coisas que você pode fazer por você

Tenho sorte – pelo menos eu acho – de ter alguns amigos que me pedem conselhos. Eu não sou bom em dar conselhos, mas resolvi fazer uma lista de pequenas coisas que acho que as pessoas devem a elas mesmas – e às vezes nem sabem. Resultou em algo simples com o objetivo de aliviar a rotina, já que não se pode fugir dela. É pequeno e prático, igual a mim, então espero que lhe sirva ao menos para reflexão. 




1. Otimizar seu tempo de espera
Somos brasileiros. Estamos acostumados – isso é péssimo – a ir a qualquer lugar e esperar anos até que chegue o transporte, que sejamos atendidos etc. Perder esse tempo assistindo Ana Maria Braga na TV da sala de espera ou usando o Whatsapp? Sério? Há milhares de livros de crônicas, poemas, pequenos contos ou que são divididos em capítulos curtos que podem prender a sua atenção por aquele tempo – e transformar uma hora perdida numa hora investida. É informação útil e uma bela fuga momentânea do caos que geralmente se instala ao seu redor. Leve um livro, revista, jornal ou mesmo um .pdf num mobile. Não venha dizer que não tem tempo de ler um livro. Eu sei que você perde uma hora e meia – sendo muito otimista – na fila do médico.


2. Tirar um tempo pra você - só com você
Quanto tempo por semana você gasta com você mesmo? Você também tem urgências e os seus prazos também vencem. Tire um tempo para si. Comece fazendo pequenas coisas que lhe dão prazer. Pequenas coisas já vão melhorar o seu dia. E vai que você transforma essas pequenas coisas em grandes. Aprenda a trazer isso para a sua rotina e em breve você também conseguirá levar a todos ao seu redor. Sério.


3. Limpar sua mente uma vez por dia
Durante o intervalo do trabalho ou quando você chega em casa após o trampo – geralmente de cabeça quente – é impossível que você simplesmente dê um “reset” na sua mente, certo? Errado. A melhor coisa que você pode fazer a si mesmo no fim do dia é deixar sua “versão corporativa” no trabalho, chegar em casa e, digamos, se limpar. Tente durante o banho ou logo antes de dormir, mas limpe a sua mente. Deixe-a em silêncio completo. No início ela vai gritar e você vai pensar em milhares de coisas, achando que está perdendo tempo ou pensando em qualquer outra coisa, mas não. Tente deixar sua mente em silencio. Essa é a melhor forma de se renovar. Essa e tomar banho.


4. Usar filtro solar
Salve, saaaalve! Por favor, se você tem o mínimo de amor por si, não saia de casa sem protetor. E não só no rosto. Passe em qualquer lugar que for levar sol. É sério, transforme o uso do protetor num hábito. Não é por vaidade, é uma questão de saúde. Se eu não conseguir te convencer, veja este vídeo e melhore.


5. Convidar alguém para bater um papo, no mínimo, uma vez por semana
Uma vez li que isso devia ser lei federal. Pergunto a pessoa que passa semanas sem ir a um café ou um bar com amigos simplesmente para beber algo e jogar conversa fora: amor, você está se lascando a troco de que? Esse é o tipo de coisa básica. Você se deve esse tipo de coisa – a você e a quem gosta de você. Se comprometa em sair com seus amigos e transforme cada encontro num encontro memorável. Isso significa: só use o celular para tirar foto desse momento. Quando terminar, ponha-o na mesa e volte a vivê-lo, tá bom?


6. Cercar-se de pessoas que lhe somam
Definição básica de “pessoa que soma”: é a que não subtrai. O mundo está cheio de pessoas subtraindo pessoas. Gente possessiva, baixo-astral e que tenta de alguma forma te prender ou diminuir o que quer que seja em você... evite. As melhores pessoas da sua vida lhe somam de alguma maneira. São as que costumam te mostrar ou descobrir com você uma porção de coisas e pessoas novas. E mais do que tudo, são as que fazem questão da sua presença. Isso vale para amigos, namorados, parentes ou indivíduos em qualquer relação imaginável. “Deixar o seu amor crescer e ser muito tranquilo”. É isso.


7. Escolher pelo menos uma atividade física que lhe dá prazer
Dr. Drauzio falou: malhar não é um dado da natureza. Por isso é comum que a gente sinta preguiça de malhar. Pessoalmente, sempre achei musculação um saco. E por isso me acostumei a pensar que academia é um saco. Aí eu descobrir o jump. E o jump me fez descobrir outras coisas divertidas. Um compromisso que você deve ter com você é não ficar parado com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar. Mova-se com o que lhe dá mais prazer. Quando você gosta daquilo que você faz - seja esporte, arte ou qualquer atividade que te mova - o prazo de validade torna-se indeterminado.


8. Criar projetos
Todo mundo tem capacidade de criar algo. Inclusive, envolvendo várias outras pessoas. Crie pequenos – ou grandes, sei lá – projetos. Eles serão seus e serão como filhos. Um blog é um projeto, um podcast é um projeto, um vídeo é um projeto, uma empresa é um projeto, uma série de fotos é um projeto, uma ONG é um – ótimo – projeto, um grupo de estudos, de caridade, de discussão. Já entendeu onde eu quero chegar, né? Pegue o seu talento e o das pessoas próximas e use tudo isso para algo. Talento parado permanece parado.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Internacionalização da Amazônia, por Cristovam Buarque

Este texto é praticamente uma transcrição de um Provocações, mas vale pela reflexão.

É ótimo quando vemos um brasileiro falando por todos nós, né? 

Numa universidade americana um jovem perguntou a Cristovam Buarque o que ele achava da internacionalização da Amazônia. Ele completou dizendo que esperava a resposta de um humanista e não de um brasileiro. 

Esta foi a resposta de Cristovam Buarque: 


Como brasileiro, eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso.

Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia, posso imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a humanidade.

Se a Amazônia, sob uma ética humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço.

Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país. Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.

Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano. Não se pode deixar esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural Amazônico, seja manipulado e instruído pelo gosto de um proprietário ou de um país. Não faz muito, um milionário japonês decidiu enterrar com ele um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.

Durante este encontro as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos Estados Unidos. Por isso eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhattan deveria pertencer a toda a humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua historia do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.

Se os Estados Unidos querem internacionalizar a Amazônia pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos Estados Unidos. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maiores do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil.

Defendo a idéia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do mundo tenha possibilidade de comer e de ir à escola. Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como patrimônio que merece cuidados do mundo inteiro.

Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas enquanto o mundo me tratar como brasileiro, eu lutarei para que a Amazônia seja nossa.




 A resposta foi publicada em agosto de 2001 no The New York Times, Washington Post, nos jornais mais importantes da Europa e até no Japão.

Não foi publicada no Brasil.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

"Receita para arrancar poemas presos", de Viviane Mosé


A maioria das doenças que as pessoas têm
São poemas presos.
Abscessos, tumores, nódulos, pedras são palavras
calcificadas,
Poemas sem vazão.
Mesmo cravos pretos, espinhas, cabelo encravado.
Prisão de ventre poderia um dia ter sido poema.
Mas não.
Pessoas às vezes adoecem da razão
De gostar de palavra presa.
Palavra boa é palavra líquida
Escorrendo em estado de lágrima
Lágrima é dor derretida.
Dor endurecida é tumor.
Lágrima é alegria derretida.
Alegria endurecida é tumor.
Lágrima é raiva derretida.
Raiva endurecida é tumor.
Lágrima é pessoa derretida.
Pessoa endurecida é tumor.
Tempo endurecido é tumor.
Tempo derretido é poema
Você pode arrancar poemas com pinças,
Buchas vegetais, óleos medicinais.
Com as pontas dos dedos, com as unhas.
Você pode arrancar poemas com banhos
De imersão, com o pente, com uma agulha.
Com pomada basilicão.
Alicate de cutículas.
Com massagens e hidratação.
Mas não use bisturi quase nunca.
Em caso de poemas difíceis use a dança.
A dança é uma forma de amolecer os poemas,
Endurecidos do corpo.
Uma forma de soltá-los,
Das dobras dos dedos dos pés, das vértebras.
Dos punhos, das axilas, do quadril.
São os poema cóccix, os poemas virilha.
Os poema olho, os poema peito.
Os poema sexo, os poema cílio.
Atualmente ando gostando de pensamento chão.
Pensamento chão é poema que nasce do pé.
É poema de pé no chão.
Poema de pé no chão é poema de gente normal,
Gente simples,
Gente de espírito santo.
Eu venho do espírito santo
Eu sou do espírito santo
Trago a Vitória do espírito santo
Santo é um espírito capaz de operar milagres
Sobre si mesmo.

Por Viviane Mosé, 1964

domingo, 7 de setembro de 2014

"Eu sei, mas não devia", de Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.


Por Marina Colasanti, 1972.

Sim, esse texto tem 42 anos. 
Mas se fosse escrito hoje seria igual, sem tirar nem por.
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